Confesso que peguei esse livro sem saber muito bem o que esperar. Sabia só que era curto, que se passava no sertão nordestino e que tinha uma cabeça de santo gigante no meio da história. E olha, isso já foi o suficiente pra eu ficar curioso.
De que se trata
Samuel perde a mãe e, seguindo um pedido dela no leito de morte, viaja quase vinte dias até Candeia, uma cidade fictícia no interior do Ceará, pra tentar encontrar a avó que nunca conheceu. Só que a recepção é tudo menos calorosa: a avó praticamente o expulsa de casa. Numa noite de tempestade, sem lugar pra ir, ele acaba se abrigando dentro de um buraco no topo de um morro que na verdade, é a cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio, separada do resto do corpo por uma falha de construção que nunca foi resolvida.
É a partir daí que tudo muda de figura: dentro daquela cabeça, Samuel começa a ouvir as preces de mulheres da região pedindo por amor. No começo é só estranho. Depois vira oportunidade, com a ajuda de Francisco, o primeiro amigo que faz na cidade, ele passa a “responder” essas preces, e Candeia, que até então parecia parada no tempo, começa a se movimentar de novo com gente de todo canto vindo atrás desse milagre.
O que eu gostei
O que mais me pegou foi como Socorro Acioli usa esse enredo tão bizarro e fantasioso pra falar de coisas bem reais. Tem uma crítica ali, nada sutil, sobre como a fé das pessoas pode ser usada como negócio e isso não fica só na crítica seca, vem embrulhado num tom de humor e leveza que impede o livro de pesar demais. Dá pra rir em vários momentos e, no parágrafo seguinte, sentir um aperto no peito por causa do abandono que o Samuel carrega.
Também achei o cenário encantador, Candeia parece existir de verdade daquelas cidades pequenas do interior que a gente já visitou ou já ouviu falar, com gente cheia de personalidade e uma vida que segue num ritmo completamente diferente do que a gente está acostumado. O realismo mágico aqui não parece um recurso emprestado de outros autores; parece nascido dali mesmo, do sertão.
O que me incomodou (um pouquinho)
Se eu for ser sincero, senti que o final foi meio corrido. Depois de um livro que constrói tudo com tanto cuidado, as últimas páginas parecem querer resolver rápido demais coisas que mereciam mais espaço. Não chega a estragar a experiência, mas fica aquela sensação de “podia ter esperado mais um pouco pra fechar isso”.
Vale a leitura?

Vale. É um livro curto, dá pra devorar num fim de semana. Fiquei pensando bastante depois que terminei sobre essa ideia de que os milagres do livro não vêm de nenhuma intervenção divina, vêm da vontade das próprias pessoas de acreditar e de se mover. É esse tipo de livro que usa o fantástico pra te fazer olhar pra realidade com outros olhos e isso, pra mim, é sempre um bom motivo pra recomendar.
Nota:


