Autor: Thiago Pontelli

  • “A Cabeça do Santo”, de Socorro Acioli: quando um livro te faz acreditar em milagre sem precisar de Deus nenhum

    “A Cabeça do Santo”, de Socorro Acioli: quando um livro te faz acreditar em milagre sem precisar de Deus nenhum

    Confesso que peguei esse livro sem saber muito bem o que esperar. Sabia só que era curto, que se passava no sertão nordestino e que tinha uma cabeça de santo gigante no meio da história. E olha, isso já foi o suficiente pra eu ficar curioso.

    De que se trata

    Samuel perde a mãe e, seguindo um pedido dela no leito de morte, viaja quase vinte dias até Candeia, uma cidade fictícia no interior do Ceará, pra tentar encontrar a avó que nunca conheceu. Só que a recepção é tudo menos calorosa: a avó praticamente o expulsa de casa. Numa noite de tempestade, sem lugar pra ir, ele acaba se abrigando dentro de um buraco no topo de um morro que na verdade, é a cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio, separada do resto do corpo por uma falha de construção que nunca foi resolvida.

    É a partir daí que tudo muda de figura: dentro daquela cabeça, Samuel começa a ouvir as preces de mulheres da região pedindo por amor. No começo é só estranho. Depois vira oportunidade, com a ajuda de Francisco, o primeiro amigo que faz na cidade, ele passa a “responder” essas preces, e Candeia, que até então parecia parada no tempo, começa a se movimentar de novo com gente de todo canto vindo atrás desse milagre.

    O que eu gostei

    O que mais me pegou foi como Socorro Acioli usa esse enredo tão bizarro e fantasioso pra falar de coisas bem reais. Tem uma crítica ali, nada sutil, sobre como a fé das pessoas pode ser usada como negócio e isso não fica só na crítica seca, vem embrulhado num tom de humor e leveza que impede o livro de pesar demais. Dá pra rir em vários momentos e, no parágrafo seguinte, sentir um aperto no peito por causa do abandono que o Samuel carrega.

    Também achei o cenário encantador, Candeia parece existir de verdade daquelas cidades pequenas do interior que a gente já visitou ou já ouviu falar, com gente cheia de personalidade e uma vida que segue num ritmo completamente diferente do que a gente está acostumado. O realismo mágico aqui não parece um recurso emprestado de outros autores; parece nascido dali mesmo, do sertão.

    O que me incomodou (um pouquinho)

    Se eu for ser sincero, senti que o final foi meio corrido. Depois de um livro que constrói tudo com tanto cuidado, as últimas páginas parecem querer resolver rápido demais coisas que mereciam mais espaço. Não chega a estragar a experiência, mas fica aquela sensação de “podia ter esperado mais um pouco pra fechar isso”.

    Vale a leitura?

    Vale. É um livro curto, dá pra devorar num fim de semana. Fiquei pensando bastante depois que terminei sobre essa ideia de que os milagres do livro não vêm de nenhuma intervenção divina, vêm da vontade das próprias pessoas de acreditar e de se mover. É esse tipo de livro que usa o fantástico pra te fazer olhar pra realidade com outros olhos e isso, pra mim, é sempre um bom motivo pra recomendar.

    Nota:

    Avaliação: 4 de 5.
  • “My Friends”, de Fredrik Backman: um livro que eu li devagar de propósito

    “My Friends”, de Fredrik Backman: um livro que eu li devagar de propósito

    Tem livro que a gente lê rápido só para saber o que acontece. E tem livro que a gente força a ler devagar, porque sabe que quando acabar vai sentir falta dele. My Friends foi o segundo tipo para mim.

    Já vinha com uma expectativa alta Backman tem esse jeito de escrever que parece simples até você perceber que uma frase te pegou de jeito sem avisar. E esse livro não foge disso, só que dessa vez o tom é mais melancólico do que o humor mais evidente de Um Homem Chamado Ove ou Pessoas Ansiosas.

    A história, sem spoiler

    O livro caminha em duas linhas do tempo. No presente, conhecemos Louisa: uma garota prestes a completar 18 anos, que cresceu passando por vários lares adotivos e está de luto pela melhor amiga que perdeu nesse caminho. A única coisa de valor que ela carrega é um cartão-postal com a reprodução de um quadro famoso o primeiro objeto que ela roubou na vida, e também o primeiro objeto bonito que ela realmente teve. Um encontro imprevisível a leva até Ted, amigo próximo do artista que pintou esse quadro, e os dois embarcam numa viagem até o litoral onde tudo começou.

    Do outro lado, voltamos vinte e cinco anos, para um verão numa cidade portuária dura, onde quatro adolescentes Ted, Ali, Joar e C. Jat se encontravam todo dia no cais. É desse verão que nasce o quadro que, décadas depois, vai amarrar as duas histórias.

    O que mais me pegou

    O que fica comigo depois de fechar esse livro não é bem a trama é a sensação. Backman constrói a amizade dos quatro garotos com tanto detalhe pequeno que, quando as coisas começam a doer para eles, dói pra mim também. Não é um tipo de dor barulhenta; é mais aquela sensação de reconhecer alguma amizade da sua própria vida numa página de ficção.

    E tem esse fio sobre arte que eu adorei: para os quatro amigos, e depois para a própria Louisa, criar alguma coisa um quadro, um grafite numa parede vira um jeito de sobreviver ao que a vida tem de mais difícil. Não é só um livro sobre amizade. É um livro sobre como um objeto de arte consegue carregar uma história inteira dentro dele, mesmo quando ninguém mais sabe que ela está ali.

    Recomendo?

    Se você já gosta de Backman, esse livro vai confirmar por que você gosta dele. Se nunca leu nada dele, talvez seja bom já entrar sabendo que o ritmo é lento e que o autor não tem nenhum medo de ser sentimental é ele sendo ele mesmo, só que numa versão mais triste.

    Fechei o livro com aquela sensação de saudade de gente que nem existe. E acho que é exatamente isso que Backman queria provocar: lembrar que os amigos que a gente faz em certos momentos da vida deixam marcas mesmo décadas depois, mesmo quando a gente nem sabe mais onde eles estão.

    Nota:

    Avaliação: 4 de 5.